Arquivo da categoria ‘Mídia’

Enquanto subia os mais de 20 degraus que levavam até a porta de dona Lúcia, pensava como podia uma sra de 80 anos morar em um local com um acesso como aquele. Havia dormido tarde na noite anterior, acordado cedo naquela manhã, e estava pregado. Pouco fôlego aos 23/24 anos. Havia falado com aquela simpática sra. por telefone para uma entrevista sobre o iminente casamento dela com seu Eugênio, um jovem de 89 anos.

Ao chegar a sala percebi que só questiona as escadas da casa quem não conhece o casal. Vitalidade baseada em uma vida bem vivida, em um astral sempre nas alturas. Um casal lindo, apaixonado que mostra que viver pode ser uma experiência extraordinária, em qualquer idade. O primeiro resultado daquela entrevista foi que passei a sexta-feira com um sorriso no rosto. O segundo pode ser visto nas páginas do Correio do Povo deste sábado, na capa do caderno Cidades.

O amor é realmente lindo!

PS: Recebi uma ligação na manhã de hoje. Dona Lúcia adorou a matéria e ligou para agradecer. Minha profissão é meio ingrata as vezes, mas sabe recompensar em certos momentos. Essa recompensa não é em dinheiro, mas esse papel é sujo, passa de mão em mão, nem quero mesmo.

PS I: Assim como no Correio do Povo, a história dos noivos é capa da Zero Hora, em matéria da colega Letícia Barbieri.

PS II: Estou convidado para o casamento, pretendo ir.

Anúncios

No interior do Rio Grande do Sul, um agricultor mantém um inusitado hobby. Todos os finais de tarde, Guido Würzius dá comida a uma família de ratões do banhado que surgiram em um açude nos fundos de sua propriedade. Os animais comem direto na mão do agricultor, que os pega pelo rabo, faz carícia e bate longos papos com os animais. Guido conta que a família começou com apenas três integrantes. “Eu não tinha nenhum esporte, fiquei com pena dos bichinhos e comecei a tratá-los”, lembra.

Para conseguir registrar o momento em que a desconfiada família de agora 13 integrantes fazia seu lanchinho, o repórter teve que se esconder dentro de uma caixa de madeira, atrelada ao trator. O resultado da dormência nas pernas e das posteriores dores musculares você confere a seguir.

ternurinha

rabo

ratoes

Gosto do programa. Admiro, em especial, o trabalho do Caco Barcellos. A idéia, o formato, os assuntos. Todo o programa é bem pensado, interessante. Mas, e sempre há um mas ferrando com tudo, existem dois mundos nessa profissão, e o programa só retrata um deles. Uma bem preparada equipe, com pautas bem encaminhadas, equipes de apoio, os melhores equipamentos.

caco

A outra realidade é bem diferente. A partir de hoje, este blog pouco ou nada lido, vai trazer o outro lado do “Profissão Repórter”. O lado de quem desenterra pautas sozinho. Sem pauteiro, sem equipe de apoio, sem revisão do texto final. Sem nada. Pautas no meio do barro, ou ainda, pautas “malucas”, mas baseadas no interesse de comunidades pequenas, e com um cotidiano bastante simples. Profissão Repórter de jornalista do interior. Pé no barro, carro atolado, bosta de vaca e muita, muita vontade mesmo de fazer um bom trabalho. Acompanhe os próximos posts.

Frost / Nixon

Publicado: agosto 3, 2009 em Filmes, Mídia, Política
Tags:, ,

frost_nixon_ver2

Um apresentador de programas de auditório festeiro e considerado fútil. Um ex-presidente que renunciara três anos antes por sucessivas denúncias de abusos de poder e fraudes eleitorais. O filme Frost / Nixon conta a história real de uma entrevista que faz parte da história dos Estados Unidos.

Depois do escândalo do Watergate, Richard Nixon fica os três anos seguintes sem falar com a imprensa. Na mesma época, o apresentador David Frost mantém programas na Austrália e Inglaterra, além de uma frustrada passagem pelos EUA. O projeto de David era ambicioso: Pagar do próprio bolso para entrevistar um político experiente, e encurrala-lo até extrair dele uma confissão nunca feita. Para Nixon, a tarefa era aparentemente mais fácil: Ganhar U$$ 600 mil, fugir das perguntas mais capciosas de um entrevistador com pouca experiência política, e ainda levar algum capital político.

O resultado dessa mistura é um filme intenso. A idéia inicial de recontar a história vem do teatro. E para viver a história no cinema, os mesmo atores da peça foram chamados. A única coisa que se pode dizer da atuação de Frank Langella (Nixon) e Michael Sheen (Frost) é que eles foram magistrais. O veterano Langella dá um show ao retratar a profunda personalidade do ex-presidente. Não à toa, ele foi indicado ao Oscar de melhor ator. 

Apesar de todos os elogios e de ter gostado filme, confesso que esperava mais dele. Não é o filme que não é bom, eu é que superestimei a produção. A partir do trailer acabei esperando demais de Frost / Nixon. Para mim, faltou um pouco de emoção, aquelas coisas forçadas que os críticos questionam, mas que os pobres mortais tanto gostam. Ainda assim,. o filme é altamente recomendável.

Apenas aconselho que quem queira retirar o máximo da produção tenha bons conhecimentos do caso do Watergate. Eu particularmente já vi o filme “Todos os homens do presidente” e também já li o livro de mesmo nome. Em várias passagens, Frost / Nixon faz referência a personagens da trama, sem explicar quem eles são. Quem já conhece a história, passa tranqüilo, que não conhece não perde nada de substancial, mas acaba ficando sem alguns detalhes. Fica a recomendação de um filme para se ver com a atenção aguçada.

16 anos, 12 mortes e muitas manchetes

Publicado: abril 28, 2008 em Mídia

 Um adolescente de 16 anos confessa ser o autor de 12 assassinatos. Sem dúvida, esse é um fato que não acontece todos os dias. Com certeza é também um fato de relevância, em tempo em que se discute a redução da maioridade penal. Isso aconteceu na cidade de Novo Hamburgo, região metropolitana de Porto Alegre. Novo Hamburgo raramente é pauta de jornais da capital. Muito menos ainda aparece na mídia nacional. Porém, após a detenção do adolescente, a imprensa de todo o Brasil correu como louca para a cidade.A história virou manchete nos meio de comunicação do estado. O jornal Diário Gaúcho, tradicional pelo seu sensacionalismo, deu a seguinte manchete: “Guri com alma de diabo”. O Fantástico do último domingo (30/03) fez matéria e veículos internacionais têm procurado a mídia local para mais informações.

A edição online de Zero Hora traz a noticia: “Adolescente suspeito de ter matado 12 pessoas ‘acha que ficou famoso’, diz promotor”. Na matéria o promotor parece discordar da visão do jovem. Porém, foi exatamente isso que aconteceu. O garoto é visto como uma criança sem noção de seus atos, uma vítima do sistema corrompido que o fez abandonar a escola na quarta série do ensino fundamental.

Notícia e espetáculo

Mas a discussão aqui proposta não está na responsabilidade do garoto, seus familiares ou do poder público. Está na espetacularização de um fato. No agendamento dos meios de comunicação de todo o Brasil. Não são poucos os veículos que trazem psicólogos e especialistas para falar sobre o assunto. O garoto, e com toda a razão, se considera uma celebridade.

Depois de tantas entrevistas, ele não pensa nas pessoas que matou. Tampouco se preocupa com os míseros três anos que ficará recluso. Ele está ciente de sua situação e do poder que adquiriu sobre os meios de comunicação. Fala o que quer, quando quer. Nas entrevistas, coloca-se como um justiceiro que matava, não apenas por vingança, mas por justiça, contra aqueles que fizeram mal a ele ou algum de seus parentes.

Sua única preocupação – e ele expressou isso para o delegado que investiga o caso – é de que os jornais não publiquem nada de errado. É tênue a linha que separa a notícia do espetáculo. É tênue, mas existe. É necessário, por parte dos meios de comunicação, todo o cuidado para não transformar um assassino em uma celebridade. Do jeito que as coisas andam, o jovem assassino terá que contratar um bom assessor de imprensa, e não um advogado.

Artigo publicado no Observatório da Imprensa: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=480FDS003#

Uma menina de 5 anos de classe média alta morre ao cair do 6° andar do prédio onde passava o fim de semana com o pai. A constatação de assassinato é imediata. Os principais suspeitos da morte são o pai e a madastra. Esta narrativa podia ser uma história de ficção, mas não é. Trata-se de um caso real, a morte de Isabella Nardoni.

 Após noticiar o fato, a mídia tornou-se um agente ativo em tudo que envolve o caso. Sem perceber, as pessoas elegeram a imprensa seu porta-voz, um mediador entre os investigadores, os familiares, e a população. Apesar da cautela inicial, aos poucos os personagens da trama foram tendo definidos seus papeis.

 O que mais chama a atenção sobre a cobertura da mídia é o tamanho do espaço dedicado ao assunto. Analisando os principais telejornais do país pode-se notar as proporções que a história tomou. Para se ter uma idéia do espaço destinado ao caso basta analisar o Fantástico do dia 06/03. Ao todo a morte de Isabella ocupou aproximadamente 18 minutos do programa. A epidemia de dengue por exemplo não ocupou nem 1/3 desse espaço.

 Os critérios adotados para escolha do que será noticiado também mudaram ao longo do caso. Se no inicio apenas os fatos mais relevantes era noticiados, aos poucos essa situação foi mudando. Consciente da repercussão do caso e da comoção nacional que a história gerou, os principais veículos de informação optaram pela emoção em detrimento da razão. Há muito que os fatos noticiados não são escolhidos pela sua relevância social, ou pelo que contribuem como informação, o que é noticia é escolhido pelo conteúdo emocional envolvido.

 Apesar da cautela por parte da mídia em não apontar diretamente culpados, a exposição e todos os elementos quase teatrais que envolvem o caso fizeram com que os culpados tenham sido escolhidos. O cidadão de um modo geral criou uma necessidade afoita de escolher os seus culpados e fazer justiça. Com paus e pedras Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá eram aguardados na saída das delegacias onde estiveram presos. Esse é o veredicto final, culpados ou não, para a opinião pública não há mais julgamentos a serem feitos, a sentença está dada.